
Da forma como entrava o dia, pela única janela daquele espaço, essas bolhas formavam figuras grotescas jogando com o efeito claro/escuro ou, luz/sombra.
Gosto de histórias. De preferência reais, do quotidiano, de gente normal e anormal. Com piada ou apenas absurdas... Gosto de contar histórias, ainda que inventadas às vezes... Gosto de ouvir histórias. A vida é uma história que cada um compõe de acordo com as suas vontades, os seus perfumes, as suas fantasias. Eu faço história. Eu sou uma pequena história. Daí este espaço que pretendo tenha uma história.



Se tivesse nascido rapaz, provavelmente chamar-se-ia Tomás, mas como saiu rapariga, chamou-se Tomásia.
Esta gorda e irrequieta criança, tinha tudo menos sansatez. E nem sempre os progenitores tinham muita paciência com as suas habituais traquinices. De faces gorduchas e vermelhas, tinha uns olhos brilhantes e sôfregos de saber. Perguntava tudo a propósito de tudo. Mexia em tudo e poucas coisas eram poupadas à sua enorme curiosidade.
O avô tinha um papagaio que havia trazido de terras de além mar. Era um bicho lindo. Amoroso. Não sabia dizer nada, mas manifestava-se plenamente quando sentia fome ou sede. Vivia numa gaiola grande e todos os dias o seu dono o mimava com falinhas de brasileiro português de lá para os lados de Amarante.
Um dia de muito muito calor, o bicho não tinha água na gaiola e sentia muita sede, por isso não se calava. O dono estava ausente e o pobre do papagaio não sossegava na gaiola. A Tomásia teve então uma ideia genial! Foi procurar umas malaguetas num dos vasos que estava à soleira e deu-as ao papagaio que as devorou num ápice.
Quando o dono chegou a casa, quase teve um ataque, quando viu o estado do animal! Tinha-se depenado quase todo, babava-se muito e parecia que estava doido de todo. O dono nem se podia aproximar. Deu-lhe água, falou com ele, tentou sossega-lo, mas nada.
Espreitou para dentro da gaiola e viu bocados de uma coisa vermelha, aproximando-se cheirou-lhe a malagueta das bravas. Logo adivinhou o que o animal tinha comido e que não fora ali parar pelo ar. Só uma mãozinha mázinha da Tomasinha podia ter sido a autora...
Chamou a Tomásia que, com as faces vermelhas e o andar hesitante se declarou logo culpada. Ainda assim disse que não sabia nada sobre o estado do papagaio, nem o que tinha comido.
- Então quem foi buscar ali ao vaso as malaguetas?
-... (encolhendo os ombros)
- Vai chamar a tua irmã.
...
- Que sabes sobre isto? Quem deu malaguetas ao papagaio?
- Foi a Tomásia!
O dono e amigo intimo do papagaio ficou verde de raiva. Queria bater na rapariga, mas não era apologista de castigos corporais.
Disse a ambas que não saissem do local. Ele já vinha.
Quando chegou trazia na mão uma malagueta vermelha e reluzente.
- Abre a boca.
A rapariga queria fugir, tapou a boca com as mãos, mas nada impediu o castigo. O bom homem esfregou na boca da Tomásia a malagueta até esta se desfazer.
- Vês agora o que fizeste ao papagaio? E tu ainda podes ir beber água e limpar a boca, mas ele não, porque está preso e não tem como reagir à tua partida. Estás satisfeita? Se voltares a por as mãos no papagaio ou lhe dás a comer ou beber coisas que não prestem, vais provar tu também o gostinho que têm.
Os lábios da Tomásia pareciam que tinham silicone. Ardiam como lume e nem a água acalmava aquela fogueira. Quanto mais esfregava mais ardia!
Lição apreendida. Nunca mais a Tomásia se aproximou do papagaio. Só de longe. É que o animal também não suportava a sua presença.
Eles sentem como nós.
Era uma velhinha de olhos azuis, cabelo todo grisalho preso com uma trança enrolada atrás da cabeça, com um semblante de quem outrora foi muito linda. O seu sorriso, sempre disponível, conferia-lhe um arzinho matreiro e, por vezes, sarcástico.
Era uma avó excelente. Tinha tudo o que um neto pode desejar: bons conselhos sem ser chata, boa cozinheira, brincalhona e, sobretudo, amiga.
Arranjava-se logo de manhã ao sair da alcova e depois de se refrescar da noite dormida. Vestia-se sempre de roupa limpa, por baixo e por cima e nunca esquecia o seu xaile e o seu avental. Depois, mesmo nos dias frios, agazalhava os bichos (que eram muitos), e quando entrava na cozinha o seu nariz estava frio como a água gelada. Sentia todos os dias esse frio quando lhe dava um beijo carinhoso e a acordava com falinhas mansas.
Gostava de uma boa conversa e quase todos os dias tinha a visita das comadres. Eram algumas, porque essa velhinha era parteira e madrinha de quase todos os que ajudava a nascer para a vida, na aldeia.
Morgada, fora uma doce e querida donzela que vestia saiote até aos pés e que era impedida de rodopiar a saia para que não se lhe vissem os tornezelos.
Viveu a sua vida sempre sob esse respeito de si porópria. Detestava a ganância, o orgulho e a vaidade.
Foi mártire de um marido que não lhe dava o devido valor. O que mais temia nele era o vexame. Odiava as festas: Natal, Páscoa. Era nessas datas que o marido lhe dava mais dores de cabeça. Não sabia beber e quase sempre acabava a festa em briga, o que a fazia sofrer imenso.
Nas tardes soalheiras, vinham a casa para uma cabaneirice, certas comadres que davam tudo para se apresentar com algo novo: sapatos, saias, casacos...etc. Quando chegavam a primeira coisa que gostavam de apresentar era o que traziam de novo. Que fora uma prenda. Que fora comprado na feira da Vila. Que lhes mandara este ou aquele da França. Que compraram na Galiza, etc.etc. A velhinha nem prestava atenção a tais relatos. Queria ela lé saber a proveniência da novidade da comadre!?
Mas do que ela gostava mesmo era quando as comadres vinham com alpergatas novinhas em folha. O seu espirito brincalhão não parava de surpreender e era uma risota sem tamanho as marotices que ela fazia. Estando as perninhas das comadres esticadinhas ao sol, com as tais alpergatas nos pézinhos, a velhinha safada aproximava-se lentamente e como quem não quer a coisa, fazia pontaria no sentido dos pés das comadres e...lá vai...uma mijadela daquelas sobre os estreados adereços. A valhinha não usava calcinhas...
Claro que as atingidas só sentiam a mijadela quando o mijo arrefecia nas alpergatas. Algumas no calor da conversa só "acordavam" com o cheiro a urina. Tal marotice enfurecia as comadres que praguejavam, mas sem uma palavra sequer contra a mijona. Ela ria-se e quando elas ripostavam respondia-lhes que era para batizar a prenda.
Batismo com urina, convenhamos, não era muito agradável. Mas a velhinha ria e fazia rir toda a gente. Caíam na esparrela, mesmo as mais espertas e logo percebiam que exibir coisas novas no quinteiro da velhinha não era a melhor escolha.
E assim se passavam as tardes quentes junto daquela que jamais será esquecida. Uma velhinha malandreca a valer.

Tinha chegado á terceira classe. Irrequieta e sempre na brincadeira, não prestou atenção às contas de dividir. Mas pior do que isso era a chatice de ter que decorar a tabuada e depois as provas dos nove e as provas reais.
Era inconcebível que a professora não deixasse as crianças brincar no recreio, só porque não tinham assimilado a tecnica da divisão.
à data estavam na moda os mapas de lã. Puxavam-se os pelos das camisolas de lã e punham-se amassadinhos dentro dos livros. Quantas mais cores se arranjassem mais bonito ficava o mapa. Depois era simples: atribuia-se uma cor a determinada região e até se podiam fazer desenhos como nos mapas verdadeiros. Aquilo sim, é que era interessante.
Naquela manhã sentiu-se um friozinho e todas as crianças vieram para as aulas bem agasalhadas. Estavam no final do Inverno, mas o sol ainda não aquecia o suficiente. No meio dos agasalhos estavam uns xailes fofos de lã, que apetecia ripar.
Se melhor o pensou, melhor o fez e, sorrateiramente, enquanto a professora de costas para a turma escrevia no quadro mais uma conta de dividir, lá vai ela por baixo das carteiras ripar os pelos dos xailes e dos casacos que estavam nas costas das cadeiras.
Foi uma excelente ideia porque a professora não deu por falta dela e ela ficou com um enorme mapa de cores. Houve uma coleguinha que quase a acusou à professora, mas ela fez-lhe sinal que lhe batia se ela falasse e então a outra calou-se.
Quando lhe foi perguntado se já tinha o resultado da conta, ela não só não o sabia, como não fez a conta de dividir cujo enunciado ainda se encontrava no quadro preto. A professora chamou-a ao quadro para que fizesse a conta e nada. Só colocou o dividendo e o divisor no lugar. Quanto ao resto nem começou para não ser alvo de chacota.
A professora ditou a sentença:
- Vais já para a segunda atrasada!
A segunda atrasada era uma vergonha. Além do mais, só porque não se sabe uma simples conta de dividir, passa-se loga para a 2ª atrasada? Deixou a sua carteira habitual da 3ª classe, pegou nos seus livros e pertences e foi ocupar uma carteira na 2ª classe atrasada. Lá estavam as alunas mais velhas e outras que eram repetentes.
Não gostou nada da brincadeira e entre dentes lá resmungou alguma coisa que a professora não gostou.
- Vais dizer à tua mãe que venha falar comigo, amanhã:
- Sim senhora professora.
As novas colegas ficaram orgulhosas e contentes com a recém chegada que era líder nas diabruras, nas rasteiras e outras actividades afins. Ninguém jogava os paus com ela e para a apanhar tinha de ser por trás, que pela frente era um perigo.
Uma das novas colegas segredou-lhe que estar alí era muito bom. Não se fazia nada e estava tudo sempre certo.
Quando chegou a casa disse à mãe que a professora queria falar com ela. Porquê perguntou logo a mãe, sabendo a rica filha que tinha. Porque fora colocada na 2ª atrasada, porque não sabia fazer contas de dividir.
A mãe calou-se e no dia seguinte apareceu durante o horário escolar para falar com a professora. Foi possível ver de dentro da sala que levou consigo um cesto redondo que parecia pesado.
Quando a professora voltou para a sala de aula, depois de algum tempo perdido com a conversa, virou-se para a turma e ensaiou um pequeno discurso. Mais ou menos para dizer que ela tomava certas atitudes para que os alunos ganhassem confiança e aprendessem melhor as matérias e que o facto de às vezes irem para classes mais atrasadas não significava que fossem atrasados mentais. Longe disso, meu Deus!. Era só para meter medo. E foi o que aconteceu com a dita rapariga do dia anterior. Quanto às demais atrasadas nem uma palavra. Lá continuaram.
Posto isto a rapariga passou a ocupar uma carteira na terceira classe adiantada, o que lhe valeu o gostinho de se sentar ao pé dos meninos e meninas bonitos da vila e filhos de senhores doutores!!!
Orgulhosa pela promoção nem cabia em si de contente, apesar de ter consciência que de contas de dividir não sabia nada.
A professora só falava virada para ela e quando ela dizia uma asneira daquelas, a professora logo arranjava uma desculpe e, muito solicita aconselhava-a a consultar esta ou aquela tabuada.
- Tens que te esforçar mais, agora que estás na 3ª adiantada, porque eu sei que sabes, mas estás distraída, não é??
E ela abanava com a cabeça e meio envergonhada olhava para os olhares reprovadores das suas novas colegas cheias de sabedoria.
Quando regressou a casa a mãe disparou:
- Então como foi hoje o dia na tua escola?
- Foi bom. Passei da 2ª atrasada para a 3ª adiantada...
- Assim é que é. Tenho uma filha muito inteligente!....
A rapariga que não era burra apesar das contas de dividir e da sua pouca idade e experiência, perguntou à mãe o que ia no cesto que ela transportara para a escola.
- Ah! Isso era uma prenda para a tua professora. Dois coelhos angorá. Um macho e uma fêmea. São muito apreciados...
- Já percebi, se houvesse 4ª classe na escola, já tinha passado no exame!

Sempre se imaginam os Anjos com uma carinha branca como a cera, uns olhos expressivos azuis, cor do mar sereno, cabelo louro em cachos, vestidos de branco e com duas asas.
O que faltava à Olga eram as asas, de resto tinha tudo, inclusive as vestes brancas ou claras que sempre trazia para realçar a sua candura e o seu sorriso tímido.
Certo dia a Olga deixou de frequentar as aulas e todas comentavam que estava muito doente das anginas. Como estava internada num colégio de freiras, o procediemtno era sempre o mesmo. Ficavam de cama até o médico chegar e diagnosticada a doença, as freiras eram as mães ausentes, as enfermeiras e muitas vezes as portadoras de algum carinho.
A Olga permaneceu muito tempo de cama o que parecia não ser natural dado que apenas estava doente da garganta, coisa pouca, para tão grande ausência.
Fazia falta a Olga, especialmente à Romy, porque eram muito amigas e tinham vindo da mesma terra. Nunca se separavam. A Romy era mais turbulenta, mas a Olga era uma doçura de menina. Sempre muito quieta, gostava de apreciar as diabruras das suas colegas de ano e quase sempre sorria, embora com um sorriso triste e um olhar vago e distante.
Parecia que sofria de doença crónica e por certo uma doença muito íntima, ligada ao coração e às pessoas que ela tanto amava: os seus pais, a sua família. Por muito que lhe fizessem as freiras, nada era como em casa. Sofria de saudades e isso via-se no seu rostinho meigo e sobretudo no seu olhar pesquisador.
Mas a Olga nunca mais descia do dormitório e começou a ouvir-se dizer que a doença não cedia à medicação e, provavelmente, teria de ir para casa.
As febres eram muito altas e o médico que voltara ao colégio não descobriu a doença que aos poucos ia corroendo aquele corpinho e rostinho de Anjo. A Olga não teve tempo de regressar a sua casa...
Um dia, a notícia caiu como uma enorme pedra. Esmagadora. Cruel. Fatídica. A Olga morreu! Nos seus nove aninhos apenas, foi para o Céu exactamente como viveu na Terra: humilde, sorridente, mas não feliz e com muito sofrimento.
Soube-se mais tarde que afinal não foram as anginas que vitimaram a Olga, mas sim uma nefrite. A medicação não tinha resultado porque a doença necessitava de algo mais para deixar aquele corpinho indefeso.
Chorou-se a sua morte mais que qualquer outra e não se sabe bem porquê.
Talvez porque se precisasse de Anjos como ela na Terra!

Era um dia cinzento, muito perto do Natal. Começou bem cedo e foi imemorável. Pelas 4 ou 5 da manhã, um reboliço pouco habitual acordou uma menina de quase sete anos de idade.
Suspendeu a respiração para melhor sentir o que se passava no quarto ao lado do seu. Passos de ida e volta. Movimentos anormais para tão madrugada hora. Súplicas mordidas e...parecia que alguém chorava!
Levantou-se muito devagarinho e tentou ouvir mais atentamente o barulho, abafado por vozes que falavam muito baixinho.
Pensou em sair do quarto, mas algo lhe dizia para permanecer quieta no seu canto. Era mais seguro. Ainda estava escuro e do quarto ao lado vinha apenas uma ténue luz.
E se subisse ao parapeito daquele janela interior? Será que conseguiria?. Empoleirou-se na cama de ferro agarrada à parede lisa e por pouco não caiu ao chão. Tentou mais uma vez colocando os pézitos como se fossem patas de passarinho agarrados ao ferro dos pés da cama. A custo, segurou-se de encontro à parede, apoiada com os braços erguidos e as mãos agarradas à pedra do buraco da janela.
Se conseguisse subir até ao vão da janela, podia ver o que se passava alí tão perto, do outro lado da parede.
Colocou almofadas sobre o ferro da cama e subiu mais um bocadinho, mas era insuficiente. Como gostaria de ter ali uma pequena escada ou até um banco para facilitar a subida e entretanto subia o seu inesgotável sentimento de espionagem...de curiosidade!
Tanto fez, tanto andou, que lá conseguiu subir muito a custo para a janela. O que viu obrigou-a a refletir se devia permanecer ali ou descer e ficar quietinha na sua caminha. Mas a inusitada cena levou-a, mais uma vez a permanecer imóvel.
A mãe estava deitada contorcendo-se com dores, enquanto uma velha que ela não conhecia, estava aos pés da cama numa atitude de espera infinita. De pernas abertas sobre a cama parecia esperar alguém ou alguma coisa que saísse da mãe.
A dada altura o choro e os "ais" da mãe começaram a crescer de tom e a velha levantou a roupa que cobria a mãe para espreitar, sabe-se lá o quê!
Cobriu-a novamente e com um semblante de poucos amigos acenou com a cabeça em jeito de negação. A avó entrou no quarto e perguntou algo à velha tendo esta respondido de novo com a cabeça em sentido negativo.
O que se estava a passar alí? Alguém podia informar??? Porque é que uma pessoa que nunca se viu, está na cama da mãe?
Absorta nestes caminhos não se deu conta que a velha pousou os olhos nela, no momento exacto em que a menina se acomodava no seu novo poleiro.
- Que faz aquela rapariga alí sentada na janela???
A mãe nem se deu conta da pergunta, porque sentia muitas dores e só gemia, mas a avó virou o seu olhar em direcção do dedo em riste da velha e veio depressa retirar a rapariga do lugar.
- Desce, minha filha, desce daí...
- O que está a acontecer à minha mãe?
- Tu vais ter uma irmãzinha ou irmãozinho...
- ???
- A tua mãe está à espera que nasça, depois explico tudo, quando ele estiver cá fora. Agora vai dormir que já te venho chamar. Não saias da cama que tá muito frio.
- O pai?
- Tá na sala. Daqui a pouco vai trabalhar. Fica quieta.
- Porque é que a mãe chora?
- São as dores do parto, minha filha, depois eu conto-te tudo.
São as dores do parto?... Pensava ela que nunca tinha ouvido falar em tal. Só conhecia as dores de barriga e pouco mais!
Deitou-se novamente mas os seus olhos ficaram abertos o resto do tempo. Os seus ouvidos também. A mãe deixara de se ouvir e o reboliço extinguiu-se. Com o cansaço a menina tinha adormecido.
Quando despertou a primeira coisa que fez foi procurar a avó. O dia já ia alto e tudo parecia normal. Da velha nem sombra. Teria ela sonhado??
- Anda cá minha neta que te vou apresentar o teu novo irmãozinho.
Num enorme rolo de cobertor saia uma carinha pouco maior que a da boneca de trapos que a avó lhe dera pelo último Natal.
- Que criança tão pequenina!! Como se chama?
- Manelzinho. Já foi baptizado e tudo correu muito bem.
- Já foi baptizado?
- Já, minha filha, porque nasceu muito fraquinho e se morresse não ia para o Céu se não fosse baptizado, percebes?
A menina já ouvira aquelas palavras na catequese e sabia que todos os nascidos em famílias cristãs como a sua, tinham de ser baptizados. Mas não tinha havido festa de baptismo como acontecera com os irmãos de amiguinhos seus e isso deixou-a triste.
- Posso pegar nele?
- Podes. Só um bocadinho que daquí a pouco ele tem que ir para a tua mãe que lhe vai dar o peito.
- O peito? Para quê?
- Para ele mamar. As crianças enquanto são pequeninas mamam nas maminhas da mãe. Como os cabritinhos e os cãezinhos, lembras-te??Tu também mamaste e foi o diabo para te desmamar!!!
Pegou no irmão com muito jeitinho, sempre sob o olhar atento da avó e nesse preciso momento, olhando a carinha ainda vermelha do irmão recém nascido e prematuro, sentiu o mais profundo e inovador sentimento da maternidade.